Palmela, através do Museu Municipal, associa-se às iniciativas do Ano Europeu
do Património Cultural, ao desvendar mais uma marca da sua história local:
80 anos da iluminação elétrica.
Para tal, recorremos a marcas no território, a objetos mas – sobretudo – à Memória
das pessoas que viveram intensamente, no seu dia-a-dia, estas transformações
da escuridão à Luz.
Instrumento de progresso, a eletricidade foi a infraestrutura mais importante
do século XX, e iniciou um novo tempo: a era da eletricidade, embora com
importantes mutações.
Lembramos a grande mudança ocorrida no setor das energias quando, há dois
séculos, uma inovação científica e tecnológica revolucionou por completo a
sociedade industrial, com a alteração de paradigma energético, associado à era
da eletricidade. Importa lembrar as ameaças ambientais ligadas a este processo,
e a forma como a sociedade se apropriou da novidade, e observar como hoje nos
relacionamos com a mesma.
É esse legado de conhecimento que aqui se convoca: 150 anos de serviço e obra
pública elétrica no concelho que colocou Palmela na via da modernidade.
Um longo caminho foi percorrido até que a infraestrutura elétrica em Portugal se
consolidasse, ao longo do século XX, rompendo radicalmente de paradigma vigente.
A eletricidade operou uma mudança profunda na sociedade e uma alteração das
mentalidades, e cedo se impôs nos diversos domínios, quer no desenvolvimento
da produção industrial e no consumo de novidades tecnológicas, quer na iluminação
pública.
Embora esta tenha constituído, desde a segunda metade de Oitocentos, uma
prioridade dos poderes públicos, e subsistam no concelho vestígios documentais
dessa natureza - havendo também notícia do uso e produção de energia elétrica
antes da sua inauguração -, só cerca de uma década após a recuperação da
autonomia administrativa, Palmela inaugurou a iluminação elétrica, necessariamente
limitada e problemática nos primeiros tempos.
A restauração do Concelho, em 1926, fez da iluminação pública
uma prioridade e um desígnio, que levou à criação do pelouro da iluminação
– entenda-se iluminação a petróleo! – atribuído a Agostinho Augusto Pereira, e que
entusiasmou o presidente da Comissão Administrativa, Joaquim José de Carvalho,
a diligenciar, em 1928, os contactos privilegiados com a Companhia das Minas da
Borralha, reconhecendo-lhe a «competência e baixo custo do projecto de montagem
e iluminação eléctrica apresentado para a Vila».
Mas, como se veio a verificar, o entusiasmo precoce teve de aguardar melhor
oportunidade.
Os tempos eram conturbados e, depressa, chegaram dias ainda mais negros,
resultantes da crise política e agrícola e da falta de trabalho sentida no concelho,
crescendo os grupos de classes trabalhadoras de «algibeiras vazias e cansadas,
mendigando o trabalho e o pão».
Ainda em Ditadura, e no contexto da movimentação política de 1930, os poderes
públicos e os proprietários industriais mobilizaram-se em torno da Exposição
Regional do Distrito que anunciou, em Setúbal, a inauguração da infraestrutura
e a iluminação elétrica da cidade.
Todos ansiavam pela luz elétrica, infraestrutura que Palmela teve de aguardar,
juntamente com outros concelhos do distrito, pois, à data, apenas Moita e o Barreiro
eram servidos por linhas de alta tensão.
Pelo caminho, foi criada a Junta de Eletrificação Nacional, em 1936, e só,
decorridos dois anos, depois de aprovadas as concessões pelo regime, Palmela
entrou na era da eletricidade.
Tinham decorrido 62 anos da inauguração da iluminação pública a petróleo,
quando Palmela realinhou o seu rumo «em prol da riqueza e [do] progresso local».
Na noite de 24 de abril de 1938, os céus pintaram-se de luz em Palmela e Quinta
do Anjo.
Era a «mais que esperada inauguração da luz eléctrica, antiga aspiração do povo
do concelho de Palmela. À noite, pelas 20h30, foi então inaugurado o dispositivo
de luz eléctrica que «encheu de brilho e cor a nobre vila».
Fechando o ciclo inaugural, a comitiva oficial, liderada por Venâncio da Costa Lima
(presidente da comissão administrativa), dirigiu-se a Quinta do Anjo – sua terra
natal –,
a fim de participar, pelas 22h30, nas cerimónias de inauguração da Casa
do Povo e da luz elétrica.
Todo o programa de festejos foi acompanhado por repórteres e fotógrafos e recebeu
grande destaque na imprensa regional, merecendo louvores e títulos de primeira
página.
Organização: Município de Palmela | Divisão de Cultura, Desporto e Juventude| Museu Municipal
Produção: Maria Leonor Campos
Fotografia: Adelino Chapa, Américo Ribeiro, Bruno Damas, Paulo Alexandre, Pedro Soares
Projeto Gráfico: Jorge Ferreira