Entre copos e balões. Do ensaio analítico à enologia moderna

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Acidímetro Salleron
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  • Nº de Inventário: 2005.04.120
  • Museu: Museu Municipal de Palmela
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Vitivinicultura
  • Suporte: Base-suporte em ferro pintado
  • Dimensões: Comp: 55, Alt: 43, Larg: 85,
  • Incorporação: Doação da Família Gonzalez Briz, Maria Manuela Gonzalez Alvarez, viúva de D. Gregório Briz, e seu filho, Carlos Briz.
  • Descrição: Peça em formato cilíndrico, com base metálica, assente em três pés de ferro fundido, pintado a preto, com pernas curvas (elevação da peça permitia a colocação de sistema de aquecimento por baixo). O tripé termina ao nível superior em pequena plataforma, com orifício circular, onde assenta a caldeira metálica (onde era aquecido o vinho), de perfil trococónico, presa à estrutura por três parafusos de orelha, metálicos. A caldeira apresenta a marca do produtor, em cartela ovalada. Na área inferior apresenta sistema de escoamento do vinho após a conclusão do teste. Do topo da plataforma do tripé parte uma haste metálica que suporta um termómetro de vidro, com dois pontos de fixação. O termometro apresenta gravação de escala numérica (para medição do ponto de ebulição do vinho), com torneira do condensador.
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Disco Ebuliométrico
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  • Nº de Inventário: 2005.04.122
  • Museu: Museu Municipal de Palmela
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Vitivinicultura
  • Autor: J. Salleron Dujardin
  • Dimensões: Alt: 12, Larg: 12,
  • Incorporação: Doação da Família Briz
  • Descrição: Peça em latão, de formato quadrangular, com cantos arredondados. A base possui várias inscrições, com título "Dosage de álcool dans le vin" e escala de 0 a 25, correspondente ao grau de alcool no vinho. Ao centro apresenta um parafuso sextavado, que fixa uma escala circular, giratória, também graduada, de 86 a 101, com apêndice metálico.
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Ebulioscópio
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  • Nº de Inventário: 2005.04.124
  • Museu: Museu Municipal de Palmela
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Vitivinicultura
  • Autor: J. Salleron Dujardin
  • Dimensões: Comp: 9,5, Alt: 38, Larg: 5,
  • Incorporação: Doação pela família Briz
  • Descrição: Peça com pé em ferro fundido, de forma semicircular ou em ferradura, permitindo o encaixe de lamparina. Da base em ferro, com acabamento em esmalte preto, eleva-se uma haste vertical, metálica, que sustenta a caldeira. O corpo central, correspondente à caldeira (onde o vinho era aquecido), possui formato cónico invertido, em cobre, com marca do produtor, em cartela ovalada. Na área inferior termina na torneira de descarga, ou de obturador (ou torneira de purga), com manípulo em T (usada para esvaziar o instrumento após a sua utilização). Assente sobre a caldeira encontra-se o condensador, colocado na vertical, de perfil cilíndrico, em latão (no seu interior passa o tubo de vapor, que permite que este condense e regresse à caldeira). Da caldeira é fixo o termómetro de vidro, graduado, para registo da temperatura exata de ebulição. Possui a inscrição OENOl Nr 71.
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Bureta de Mohr
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  • Nº de Inventário: 2005.04.1548
  • Museu: Museu Municipal de Palmela
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Vitivinicultura
  • Autor: Desconhecido
  • Dimensões: Alt: 47 , Larg: 21,5,
  • Incorporação: Doação da Casa Quaresma - Quinta do Anjo, Palmela
  • Descrição: A peça apresenta um tubo de vidro, cilíndrico e transparente, de alta resistência, posicionado verticalmente, com escala gravada, com subdivisões de 0,1ml, permitindo leituras de alta precisão. Na extremidade inferior o tubo apresenta um bico capilar separado, ligado ao tubo principal por uma secção de borracha flexível, controlada por uma pinça de pressão que interrompe ou liberta o líquido gota a gota. O recipiente em vidro é suportado por um elemento metálico assente numa base cerâmica, em faiança, que apresenta o carimbo de produção - J. Salleron Dujardin - no canto superior esquerdo.
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Dispositivo analítico
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  • Nº de Inventário: 2005.04.1553
  • Museu: Museu Municipal de Palmela
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Vitivinicultura
  • Autor: Desconhecido
  • Dimensões: Alt: 12, Larg: 30,5,
  • Incorporação: Doação da Casa Quaresma
  • Descrição: O dispositivo é constituído por um suporte em madeira, de dois níveis, com orifícios circulares, para acessórios analíticos: provetas e varetas, copo de ensaio graduado de marca Dujardin J. Salleron - Paris, e Tubo acidimétrico graduado (10cc) da marca Dujardin Salleron - Paris. A peça tem um arame frontal que serviria para suspensão de informação de pequenas chapas metálicas.
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Estojo acidimétrico
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  • Nº de Inventário: 2005.04.1554
  • Museu: Museu Municipal de Palmela
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Vitivinicultura
  • Autor: J. Salleron Dujardin
  • Dimensões: Alt: 25, Larg: 47,5,
  • Incorporação: Doação Casa Quaresma - Quinta do Anjo, Palmela
  • Descrição: Caixa em madeira retangular, com receptáculo fechado por tampa, articulado com duas dobradiças interiores. Frontalmente apresenta três ferrolhos deslizantes, em formato de gancho. Na tampa apresenta dois suporte circulares de uma gualdra (inexistente), decorados com incisões concêntricas, e no centro destes a marca do fabricante. As superfícies exteriores possuem verniz castanho escuro. No interior da tampa legenda com número de registo do fabricante. Na área inferior da caixa destacam-se duas abas laterais de suporte de divisória, em madeira, com seis orifícios circulares, de diferentes dimensões, para suporte dos frascos.
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Aparelho de Mathieu
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  • Nº de Inventário: 2005.04.1556
  • Museu: Museu Municipal de Palmela
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Vitivinicultura
  • Autor: Desconhecido
  • Dimensões: Alt: 60, Larg: 29,
  • Incorporação: Doação da Casa Quaresma - Quinta do Anjo, Palmela
  • Descrição: A estrutura da peça é composta por uma caixa metálica retangular, de cor preta (ferro pintado), que serve de painel de montagem para os componentes de vidro. A base assenta sobre quatro pernas finas de metal, elevando o sistema para permitir o posicionamento de uma fonte de calor (como um bico de álcool ou gás) por baixo. Na parte frontal, destacam-se dois bicos de Bunsen, presos à estrutura metálica. Entre os dois bicos a marca do produtor em cartela ovalada. No topo, encontra-se um reservatório com balão piriforme de haste longa, que permite a introdução de reagentes ou água destilada.
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Densímetro
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  • Nº de Inventário: 2005.04.2675
  • Museu: Museu Municipal de Palmela
  • Super Categoria: Etnologia
  • Categoria: Vitivinicultura
  • Autor: Desconhecido
  • Dimensões: Alt: 26, Larg: 2,
  • Descrição: Corpo em vidro, de formato cilíndrico, composto por tubo selado, apresentando três áreas distintas. A extremidade esquerda, mais larga e arredondada contém pequenas esferas de chumbo, presas com cera branca, permitindo ao instrumento flutuar na vertical. A parte central da peça é mais larga, garantindo ao objeto a possibilidade de flutuar. A área direita possui a haste graduada, em papel.

Apresentação

                                 «São muitos os que fazem vinho, e poucos os que o fazem bem»

                                                                                     Visconde de Villa-Maior, 1868

 

Na segunda metade do século XIX, Portugal registou uma progressão incontestável na área da viticultura, não obstante o impacto decorrente de um maior surto de pragas. O país beneficiava, então, de todas as condições para crescer em termos vinícolas.

A política agrícola seguida pelos governos, no quadro da estrutura liberal do Fontismo, centrada nas reformas da terra e do trabalho, e no desenvolvimento das instituições académicas e de laboratórios de investigação aplicada à agricultura e à indústria, fez da produção de vinho um dos principais interesses nacionais, havendo mesmo uma espécie de lema para o sector: «Produzindo vinhos de qualidade, acrescenta-se riqueza pública».

A questão do vinho domina os principais artigos e periódicos de divulgação científica na área agrícola, onde o debate congrega algumas das figuras mais proeminentes da elite ilustrada portuguesa, parte delas com forte ligação ao sector vitivinícola, enquanto grandes proprietários agrícolas e produtores, falamos de Ferreira Lapa, António Augusto de Aguiar, Simões Margiochi, Visconde Villa-Maior, entre outros.

É evidente a preocupação com o fraco crescimento das exportações de vinho. Somam-se os apelos, na imprensa e na documentação especializada, para que o país aumente a sua capacidade produtiva e encontre maneiras de subir a quota exportada, «pouco mais da décima parte dos estimados 348 milhões de litros da produção anual» de 1873 (Relatório da Direção Geral de Commercio e Industria).  

Pugnando pela causa do vinho, capital de “riqueza e de muita fama para exportação” (particularmente os requintados vinhos licorosos do Porto e da Madeira), o Visconde de Villa-Maior incentiva os produtores e comerciantes a apostarem na “variedade” e na “alteração de padrão de vinhos de pasto” (até então incipiente).

Embora poucos neguem ou ignorem a importância dos vinhos na economia portuguesa, existe algum mal-estar sobre a situação do sector, com várias vozes a insurgir-se contra a «falta de conhecimentos indispensáveis” numa “cultura tão especial» e exigente como esta. O mesmo Villa-Maior adverte contra a «imperfeição com que ainda se fabricavam» os vinhos de mesa em Portugal (que, no geral, eram pouco tratados e de mau gosto, pelo recurso excessivo à aguardente), recomendando vivamente a “aprendizagem dos processos de fabrico e de conservação” mais aprimorados e reputados.

António Augusto de Aguiar, distinto académico (e comissário régio da representação portuguesa na Exposição de Londres de 1874), alinha pelo mesmo tom, quando critica os vinhateiros pela “falta de estudo e pelo fabrico de vinhos de pasto doces, mal fermentados e com aguardente” (Conferências sobre Vinhos -1876).

Na viragem do século, notam-se alguns progressos sensíveis. Muito por força de alguns avanços técnicos e científicos, Portugal afirma-se na vitivinicultura europeia, participando na Exposição Universal de Paris, em 1900, onde é lançada a obra ilustrada O Portugal Vinícola: Estudos sobre a Ampelografia e o Valor Enológico das Principais Castas de Videiras de Portugal.

Justificando as razões do estudo na «lacuna sensível da nossa tecnologia agrícola», o autor, Cinccinato da Costa [1860-1930], expõe o estado da arte e centra (na senda de Villa-Maior, directamente envolvido no estabelecimento de uma Escola Ampelográfica), os padrões da complexa arte de fazer vinhos da enologia racional.

Ainda que os eminentes enólogos sem conhecimento teórico como Diogo Macedo (um dos mais notáveis do seu tempo) se tenham distinguido como grandes mestres, na verdade, o défice analítico - amplamente exposto na literatura académica e imprensa especializada do século XIX - atravessa, temporalmente, o século XX, até que as adegas reformem os seus arquétipos e consolidem o modelo de vinificação moderna e a indústria portuguesa recupere, aos poucos, um lugar no mapa internacional da exportação vinícola.

 

Em 1864, Pasteur, cientista francês e principal fundador da microbiologia, iniciou a pesquisa sobre a fermentação, criando o processo de pasteurização, com a identificação da bactéria responsável pelo processo de acidez desenvolvido durante a acção fermentativa dos mostos.

Na esteira de outros cientistas (Ferdinand Cohn e Robert Koch, cujos estudos foram decisivos para avanços significativos, nomeadamente, na física, na química e na biologia), Pasteur focou no processo da fermentação racional os principais cuidados analíticos a executar.

Graças ao seu trabalho no campo da pasteurização (método que evitou as muitas perdas económicas que a produção vinícola enfrentava cronicamente) e na teoria dos micro-organismos, abriu-se uma nova etapa na ciência moderna, fundada nos princípios da investigação e no método experimental analítico aplicado à arte de fazer vinho.

No contexto de Oitocentos, marcado pelo pensamento racionalista e pela ideia de progresso económico e social, a cultura científica da academia difunde-se por periódicos e revistas especializadas (em matéria agrícola), conquistando e estimulando o debate entre agricultores e produtores de vinho, pelo menos entre aqueles mais motivados pela inovação e inseridos em meios favoráveis.

Em paralelo, e não obstante a irrelevância da indústria portuguesa na sua componente tecnológica, Portugal aventura-se na Europa, marcando presença em eventos internacionais onde beneficia de algumas distinções e reconhecimento, ao mesmo tempo que o vinho, impulsionado pelos conceitos difundidos entre os médico-higienistas, se apresenta como alimento e bebida saudável.

 

Entre copos e balões. Do ensaio analítico à enologia moderna” 

fala-se de vinificação racional, conceito sustentado no saber científico e nos princípios fundadores da técnica enológica aqui exibida no conjunto de aparelhos analíticos pertencentes ao Museu Municipal de Palmela que, pela primeira vez, os expõe ao público.

Constituída a partir de doações particulares, oriundas de famílias proprietárias de adegas do concelho, os aparelhos patenteiam o património científico local, evidenciando a vulgarização dos métodos racionais de fabrico e conservação dos vinhos.

É na adega industrial que a capacitação de um laboratório faz a diferença e se torna uma peça fundamental no desempenho vinícola racional. Este lugar, recolhido e abrigado no interior da Adega, é onde o enólogo ou o técnico credenciado analisa e determina as propriedades do mosto, em particular a acidez que desempenha um papel importante no fenómeno da fermentação. Munido dos instrumentos analíticos, o enólogo colhia as amostras e ensaiava, entre copos, provetas e balões, os procedimentos de controlo das diversas operações de vinificação, acompanhando o produto em cada uma das fases do fabrico.

O conjunto de aparelhos era diversificado.

Os ensaios analíticos decorriam entre o copo de ensaio, o balão e a proveta, o gleucómetro e o acidímetro, o ebulioscópio e o ebuliómetro, o disco ebuliométrico, a bureta, o alambique, e o aparelho de Mathieu, entre outros.

Avaliava-se tanto a riqueza sacarina do mosto ou o grau alcoólico, assim como a acidez (total e volátil), para referir apenas alguns elementos essenciais na vinificação racional moderna.

Evitando uma produção ao acaso, o enólogo vinificador ia acompanhando rigorosamente as práticas preventivas laboratoriais, inferindo as correcções, consultando e comparando os registos anuais, sempre na expectativa de apresentar um vinho tipificado de qualidade, de o aperfeiçoar e merecer o apreço dos seus clientes.

 

 

Ficha Técnica

Organização: Município de Palmela | Divisão de Bibliotecas e Património Cultural | Museu Municipal de Palmela

Produção: Maria Leonor Campos

Fotografia: Bruno Damas

Projeto Gráfico: Município de Palmela | Gabinete de Comunicação